SEG 20 DE AGOSTO DE 2018 - 21:37hs.
Artigo da Folha de S. Paulo

Brasil entra no radar dos maiores resorts de cassinos do mundo

Os dois projetos de lei que tramitam hoje no Brasil para a legalização dos jogos de azar colocaram o país na rota das grandes multinacionais como Sands (dona do Venetian, em Las Vegas), MGM Resorts (do Bellagio) e Caesars Entertainment (Flamingo), que enviaram executivos a Brasília com alta frequência nos últimos anos. Elas estão interessadas em construir complexos de hotéis e cassinos com investimentos bilionários no país.

Interessadas em construir complexos de hotéis e cassinos com investimentos bilionários, essas e outras companhias não desistem diante de recuos como o que ocorreu no último dia 7 de março, quando a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado rejeitou o projeto de lei 186. O texto ainda pode ir a plenário e ser aprovado. 

Para Jan Blackhurst, alta executiva do Caesars, a decisão da CCJ é frustrante, mas não mata a esperança de que o Brasil um dia legalize o jogo. “O tema é complexo. Elaborar leis leva tempo. O Brasil continua sendo um mercado potencial interessante”, afirma Blackhurst, que já foi prefeita de Las Vegas. Alan Feldman, vice-presidente da MGM Resorts, também diz que não vai tirar os olhos do país.

O lobby dos grandes resorts pressiona por uma legislação pouco abrangente, ou seja, que não libere, no Brasil, também o jogo do bicho e o caça-níquel, como tem sido discutido no Congresso nos últimos anos. Para esses grupos, basta que sejam autorizados os cassinos integrados a hotéis, porque é na venda de diárias, shows, feiras e eventos de negócios que está grande parte da sua receita. 

A ideia é atrair turismo de profissionais que visitam convenções e feiras, segundo Fabio Kujawski, sócio do escritório Mattos Filho, que acompanha o assunto. 

“Não é à toa que os projetos de lei têm requisitos mínimos de infraestrutura de hotelaria, entretenimento e negócios. Em vários países que regulamentaram a instalação de cassino, houve exigência de número de quartos, restaurantes, casas de shows”, diz Kujawski. 

O Brasil, porém, não teria uma Las Vegas. Ainda que a lei liberasse mais empreendimentos, haveria demanda para pouco mais de três complexos de grande porte, como aqueles de arquitetura extravagante vistos na cidade americana e também em Macau, segundo o advogado Luiz Felipe Maia, especialista no setor. Com investimento em torno de US$ 3 bilhões em cada projeto, o aporte total superaria US$ 10 bilhões, diz ele. 

“Há potencial de mercado em São Paulo, no Rio e no Nordeste. Precisa de infraestrutura aeroportuária.” Tudo depende de como virá a legislação. Se interessar às multinacionais, o investimento cresce. Em Cingapura, o Sands investiu US$ 6 bilhões em um complexo com uma piscina suspensa na cobertura. 

O presidente do português Casino Estoril, Mário Ferreira, lembra que Las Vegas começou como um polo de jogos simples e ganhou vocação para outros serviços a cada nova geração de cassinos. 

“Foi na década passada que Las Vegas desenvolveu seu turismo de negócios, sua gastronomia e centros de convenções maiores”, diz Magno Sousa, do Instituto Jogo Legal, que defende a causa.  

A cidade é o principal destino para conferências, com 22 mil reuniões e convenções ao ano. Em 2016, recebeu o recorde de 42,9 milhões de visitantes, segundo o escritório de fomento ao turismo local.

Entre as vozes contrárias à legalização do jogo, a preocupação é com o fraco retorno de impostos ao país e com o risco de favorecer tanto a lavagem de dinheiro como o vício. “O que será arrecadado é pouco em relação ao tamanho do aparato estatal que seria necessário para coibir ilícitos”, diz Floriano Sá Neto, presidente da Anfip (associação de auditores da Receita). 

Fonte: GMB / Folha do Sao Paulo