QUA 19 DE SETEMBRO DE 2018 - 06:58hs.
Fabián Bataglia
OPINIÃO-FABIAN BATAGLIA, JORNALISTA ESPECIALIZADO NO SETOR DE JOGOS

A indústria equestre no Brasil

O cavalo foi uma parte importante para o crescimento dos primeiros assentamentos. Hoje em dia são parte do trabalho do esporte em várias modalidades. No Brasil, representa uma fonte de trabalho e renda já que emprega milhares de pessoas e movimenta bilhões de reais todos os anos. No entanto, muitos especialistas destacam que os equinos, apesar das bondades que oferecem, não são cuidados da forma como se deve e não estão oferecendo todo o seu potencial.

A indústria equestre no Brasil

Na história da humanidade, o cavalo foi uma parte importante para o crescimento dos primeiros assentamentos, o desenvolvimento da agricultura, a conquista de novos espaços e do transporte, por séculos. Hoje em dia são parte do trabalho, do lazer e especialmente do esporte em várias modalidades. No Brasil, representa uma fonte de trabalho e renda já que emprega milhares de pessoas e movimenta bilhões de reais todos os anos em circulação de dinheiro e receitas fiscais. No entanto, muitos especialistas destacam que os equinos, apesar das bondades que oferecem, não são cuidados da forma como se deve e não estão oferecendo todo o seu potencial.

Alguns meses atrás, o Jockey Club de São Paulo fez uma declaração que revelava que as corridas de cavalos no Brasil movimentam cerca de 1 bilhão de reais por ano. Estes dados foram fornecidos pela Alta Escola de Agricultura Luiz de Queiroz, e deste total, pelo menos 600 milhões vêm das apostas. No entanto, os jockey Clubs em todo o Brasil afirmam que as corridas não são suficientes para manter a maquinaria que representa o desenvolvimento do cavalo e o pagamento aos jockeys. Então eles devem procurar novas formas de gerar renda, tentando transformar as pistas em espaços para um conjunto de pessoas e não apenas como um reduto para jogadores.

A ideia de que os hipódromos se tornem um espaço de recreação fora do circuito das apostas, pode significar um paliativo para gerar uma renda mais elevada ao setor. Por exemplo, o Jockey Club de São Paulo organiza eventos onde recebem cerca de 10.000 pessoas para os fins de semana, com atividades para os meninos, passeios a cavalo e espaços culinários. Obviamente, o principal negócio é o turfe e as apostas, mas a indústria tenta fazer da pista um espaço para toda a família e, se você está interessado, pode apostar por apenas dois reais.

A questão é: esse tipo de evento é suficiente para que a indústria possa crescer no Brasil ou precisamos de outras medidas, especialmente do governo, para se tornar numa indústria verdadeiramente competitiva? Enquanto o Brasil tem o quarto maior rebanho de cavalos do mundo com cerca de 5,8 milhões de cabeças atrás dos Estados Unidos, México e China, não aparece na lista dos dez primeiros países produtores de raça pura de Carrera, que é a nobreza da indústria do turfe. A Argentina, com 2 milhões a menos no parque cavalar é a quarta nesta lista e produz três vezes mais cavalos de corrida que o Brasil. O segredo está nas políticas destinadas a promover a produção de raças e um fundo criado a partir da arrecadação das caça níqueis instaladas na província de Buenos Aires, uma região que produz o 95% dos cavalos puro-sangue do país.

Estudos realizados no Brasil indicam que a perspectiva de crescimento desse negócio passa pela capacidade dos criadores se organizarem para produzir animais de qualidade, com uma visão muito mais colocada no mercado internacional. Recentemente, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil criou a Comissão Nacional de Cavalos com o objetivo de reunir associações de criadores de todo o país e tentar colocar em destaque esse segmento produtivo. No Brasil existem hoje mais de 20 associações de criadores de puro-sangue, cujo potencial pode mudar sua atual posição.

Embora o volume de negócios da atividade que corresponde ao cavalo brasileiro se encontra em torno dos 7.5 bilhões de reais por ano, envolve cerca de 500.000 pessoas direta e indiretamente e que isso ajuda os criadores a se tornarem profissionais na cria e reprodução de cavalos de raça, muitas destas receitas vêm da venda de cavalos para abate e consumo em países como a França, a China e a Europa Oriental. De acordo com dados da organização das Nações Unidas para a alimentação e a agricultura (FAO, sua sigla em inglês), o Brasil fornece até 15 por cento do número total de cabeças de cavalo destinadas ao consumo humano.

Os especialistas internacionais em turfe poderiam dar uma ideia de como melhorar a indústria equestre e não só se basear no abate e venda de animais para consumo, mas em políticas que incentivem a cria de espécimes de qualidade. No Canadá, o governo criou um acordo de financiamento para o setor de cavalos de corrida de 105 milhões de dólares para apoiar pistas que estão em déficit e gerar novos empregos; os Estados Unidos, o principal produtor mundial de puro-sangue, na maioria do 32 estados onde existem hipódromos, os governos oferecem recompensas e incentivos para a reprodução e também obtém porcentagens dos jogos de azar e máquinas caça-níqueis.

Essas circunstancias fazem que exista um grande prêmio que chega aos 16 milhões de dólares. Na Irlanda, o apoio do estado por meio de benefícios fiscais e a isenção do imposto de renda fez que o país se tornasse o terceiro maior produtor de puro-sangue, sendo hoje o maior exportador do mundo desses animais. Graças aos garanhões irlandeses, a China está desenvolvendo sua indústria equestre.

Porem é importante destacar que o crescimento da cria de cavalos e da indústria do turfe parece estar intimamente ligada ao mundo das apostas e, assim, aos jogos de azar. A maioria dos países onde o hipismo prospera e as raças são notavelmente melhoradas, não só eles são apoiados pelos governos, senão ainda existe a participação em receitas de jogo que gera o desenvolvimento da indústria e centenas de postos de trabalho nesse setor e nos setores diretamente ligados.

A exploração equestre brasileira, pelo seu número, sua história e seu potencial, poderia até se tornar uma indústria próspera e competir por uma posição no pódio mundial de cavalos de raça puro-sangue. É tão amplamente aceito o desenvolvimento da atividade que até mesmo um senador pelo Rio Grande do Sul, Laiser Martins, que se opõe à legalização do jogo, pediu que se a lei fora aprovada, eles possam estender as apostas para todos os esportes equestres e que não seja uma questão exclusiva para o Turfe.

FABIAN BATAGLIA


Fabián Bataglia. Jornalista especializado na indústria dos jogos de azar; formado em Comunicação Social na Universidade CAECE de Buenos Aires e professor de Jornalismo e Comunicação nesta universidade. Especialista em produção de informação e em comunicação digital; atualmente trabalha no Diario del Juego de Buenos Aires, Argentina.