QUI 26 DE ABRIL DE 2018 - 23:54hs.
Fabián Bataglia
OPINIÃO-FABIAN BATAGLIA, JORNALISTA ESPECIALIZADO NO SETOR DE JOGOS

Os Daily Fantasy Sports crescem no mundo das apostas esportivas

Com um mercado em expansão constante e flutuando entre a legalidade e ilegalidade, os Esportes Diários de Fantasia (DFS, sigla com as suas inicias em inglês) se definem entre ser um jogo de azar ou de habilidade. Esta modalidade, que cresce em todo o mundo, apresenta desafios dentro e fora do universo IGaming e os empresários do setor estão procurando mercados para a geração de novos negócios.

Os Daily Fantasy Sports crescem no mundo das apostas esportivas

Os esportes de fantasia existem há muitos anos. Em 1980, em uma reunião entre colegas, o jornalista esportivo Daniel Okrent criou a primeira liga de beisebol de fantasia e o conceito cresceu em popularidade rapidamente. Em 1984, a Fantasy Football Digest criou o primeiro livro de regras do futebol americano de fantasia, e em 1999 se fundou a Fantasy Sports Trade Association. Nesse momento, já se escrevia uma coluna semanal no jornal USA Today sobre este assunto.

Os esportes tradicionais de fantasia são um jogo em onde um grupo de jogadores, chamados de Liga, seleciona entre uma quantidade de esportistas profissionais em atividade um número suficiente para montar seu time fictício. O jogador cujo time ganhou a maior quantidade de pontos durante a temporada, ganha o jogo, assim, simples. Porém para chegar a esse patamar, os jogadores devem dedicar muito tempo à coleta de dados e estatísticas esportivas para montar seus times. Tanto esforço fez que, com o tempo, se começasse a fazer tímidas apostas em dinheiro, a princípio, para logo envolver quantidades maiores.

Por outro lado, os Esportes Diários de Fantasia são uma questão um pouco mais complicada. A diferença é que os jogadores que esperam toda uma temporada de futebol para saber quem ganhou e quem perdeu, nos Esportes Diários têm os resultados anunciados a cada dia. Então, você pode fazer suas apostas de manhã e pela tarde você saberá se ganhou algum dinheiro ou se perdeu. Enquanto nos jogos de fantasia tradicionais se joga entre amigos e colegas de trabalho, os esportes diários são jogados online por milhares de entusiastas. Cada jogador contribui com dois ou três dólares para entrar na Liga, de modo que o jogador que ganha, pode levar até um milhão. Cifra nada depreciável.

E aqui começa o dilema. Devido às circunstâncias óbvias é considerado um jogo de habilidade e, portanto, não deveria ser proibido. Porém, a quota de azar é vista pelos reguladores como algo que não deve ser permitido. Para ilustrar, vamos comentar o caso do Texas nos Estados Unidos, onde os legisladores debatem entre habilidade para criar times e o azar dos resultados. Alguns representantes do estado, como o democrata Richard Raymond, afirmam que quem diz que os jogos diários de fantasia não são um jogo de habilidade, é uma pessoa que nunca jogou.  Raymond lidera um esforço parlamentar para que esses jogos sejam legais no Texas com uma nova legislação.

Essa situação tem detrás a força de uma dezena de grupos encabeçados pelos dois principais operadores deste jogo, FanDuel e DraftKings, que somaram a esta indústria milhões de jogadores nos Estados Unidos e Canadá. O projeto de lei apresentado por Raymond explica que “a oportunidade de reunir um time fictício composto de esportistas profissionais ou aficionados por um participante para competir contra outros times de ficção reunidos por outros participantes (...) é um concurso de boa fé para determinar a habilidade deste participante na montagem de seu time”.

Não obstante, contra o projeto de Raymond, que foi debatido no comitê de licenças e procedimentos administrativos da legislatura, se encontra o grupo de pressão liderado pela Convenção Geral Batista do Texas. Os batistas explicaram que como se paga para jogar nos esportes de fantasia com a esperança de acumular prêmios “é uma clara definição de que se trata de um jogo de azar”. Esse grupo considera que há um elemento de azar nos jogos de fantasia e esse elemento é que define o jogo como sendo ilegal no estado.

Em uma declaração o fiscal geral do Texas, Ken Paxton, explicou que se bem a formação de um time de fantasia é baseada nas estatísticas dos atletas profissionais e isto poderia ter um componente de habilidade, está fora de discussão racional que as ligas dos jogos diários de fantasia implicam elementos de azar por como os jogadores selecionam seus atletas no dia do jogo. Também, explicou que os jogos onde os participantes têm que pagar para jogar estão contra as leis estatais dos jogos de azar.  

Apesar dessas restrições, as empresas de jogos diários de fantasia nunca mostraram algum sinal de desaceleração no crescimento. Os dois gigantes da indústria, DraftKings e FanDuel, tiveram a intenção de se fundir em uma só empresa tempos atrás, porém, após meses de negociações, tudo não passou de uma tentativa que foi abandonada de forma abrupta. É entendível que nenhum dos conglomerados empresariais queiram ceder terreno ao outro e, assim a luta pela supremacia prossegue. Cada dia, essas duas empresas geram milhares de dólares com as apostas de fantasia e só a DraftKings tem uma plataforma de oito milhões de usuários. 

O negócio é enorme e o dilema se é um jogo de estratégia ou de azar, vai seguir porque é uma posição de acordo como a cor que se veja do cristal. No entanto quem o defende insiste que estudar estatísticas, construir equipes partindo da performance dos atletas profissionais do mundo real e seguir diariamente os resultados, mostra quem foi mais hábil, mas, os seus detratores não estão seguros disto.

Eles estão convencidos de que a ação mesma da aposta diária e da profissionalização de seus apostadores, converte aos DFS numa autêntica rede de apostas ilegais fantasiadas como um jogo inocente. Eles explicam que, enquanto os esportes da fantasia tradicionais são jogados de maneira ocasional e entre um grupo reduzido de amigos, os DFS envolvem enormes somas de dinheiro e centenas de milhares de entusiastas ao redor do mundo.  As duas posturas são atendíveis desde o ponto de vista de quem a postula.

Ainda assim, os empresários do setor explicam que os DFS estão se tornando mais populares a cada dia, porque se ajustam às atuais necessidades da faixa etária dos jovens de entre 18 e 35 anos. Essas pessoas esperam obter experiências muito diferentes às de seus pais, porque cresceram jogando vídeo games de alta qualidade e estão imersos em constantes interações sociais. Para eles, os DFS estão se convertendo em algo muito novo no mundo das apostas esportivas, porque os jovens atuais querem jogos que possam desafiar as suas habilidades.

Porém, nem tudo são flores. Existem casos onde o excesso de entusiasmo e a falta de controle fizeram com que os jogadores se tornassem problemáticos. Os DFS são uma indústria bilionária que envolve os meios de comunicação, fundos de cobertura e organizações esportivas profissionais, que movimentam dinheiro e pessoas. No mundo da ilegalidade e da falta de regulação, o verdadeiro problema é ausência de salvaguardas para proteger aos jogadores com problemas e aos jovens adultos, e não a discussão bizantina de se são só apostas esportivas ou um jogo em que se mistura o azar com a habilidade do jogador. 


FABIAN BATAGLIA

Fabián Bataglia. Jornalista especializado na indústria dos jogos de azar; formado em Comunicação Social na Universidade CAECE de Buenos Aires e professor de Jornalismo e Comunicação nesta universidade. Especialista em produção de informação e em comunicação digital; atualmente trabalha no Diario del Juego de Buenos Aires, Argentina.