SÁB 18 DE AGOSTO DE 2018 - 19:23hs.
O fundador e presidente do grupo Las Vegas Sands

Sheldon Adelson esta outra vez no Brasil para investir em resorts com cassinos

Nos últimos anos, o fundador e presidente do grupo Las Vegas Sands (LVS), um dos maiores de resorts e cassinos do mundo, deu muita atenção à Ásia, onde fez investimentos bilionários e rentáveis, mas agora está interessado em outro mercado - o Brasil. 'Estou aqui para considerar o investimento em um ou mais resorts integrados', disse Adelson ao Valor, ontem, em SP. Também almoçou, no Palácio da Cidade, com Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro.

Sheldon Adelson tem uma visão privilegiada da economia e da política americanas - e isso não é força de expressão. No ano passado, ele ocupou um assento dianteiro e central na cerimônia de posse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de quem foi um dos principais financiadores de campanha, e teria influenciado o governo americano em questões polêmicas, que vão da retirada do acordo nuclear com o Irã até a transferência da embaixada em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém.

Nos últimos anos, o fundador e presidente do grupo Las Vegas Sands (LVS), um dos maiores de resorts e cassinos do mundo, deu muita atenção à Ásia, onde fez investimentos bilionários e rentáveis, mas agora está interessado em outro mercado - o Brasil.

"Estou aqui para considerar o investimento em um ou mais resorts integrados", disse Adelson ao Valor, ontem, em São Paulo. Resort integrado, com o perdão do trocadilho, é o nome do jogo para o LVS. Aos 84 anos, o empresário é considerado um dos responsáveis por mudar a face de Las Vegas nas últimas décadas, ao combinar cassinos - o arroz com feijão da cidade - com hotéis, teatros, shoppings, restaurantes e, principalmente, grandes centros de convenções, tudo em um único lugar.

Adelson almoçou segunda-feira, no Palácio da Cidade, com Marcelo Crivella, prefeito da cidade do Rio de Janeiro. O empresário, um dos 20 homens mais ricos do mundo, veio prospectar no mercado brasileiro, pela 2ª vez em um ano, de olho numa eventual legalização dos cassinos.

Alguns dos pontos mais conhecidos de Las Vegas pertencem a Adelson e seguem esse modelo, caso do Venetian, que reproduz os canais de Veneza, com passeios de gôndola e tudo o mais. "A ideia foi da minha mulher, Miriam", diz ele, apontando para a companheira ao lado. "Foi um dos lugares onde passamos nossa lua de mel. Ela achou a cidade romântica." O casamento vai para seu 28º ano e os dois viajam juntos o tempo todo.

A despeito da fama de Las Vegas, é provavelmente na Ásia que o modelo do resort integrado é mais facilmente reconhecível. Em Macau - uma região administrativa especial da China, semelhante a Hong Kong -, a LVS construiu seis empreendimentos, com investimento total de US$ 14 bilhões. Do espaço total disponível, só 4% é ocupado pelos cassinos, diz Adelson. Todo o resto fica para as demais atividades.

No Brasil, os alvos potenciais da LVS são, a princípio, Rio e São Paulo - ambas grandes cidades, com infraestrutura como rede hoteleira estabelecida e aeroportos internacionais, afirma Adelson.

Concretizar os investimentos, no entanto, depende de muitas variáveis. A principal delas, claro, é a mudança na lei, que desde 1941 proíbe o jogo no Brasil. Faz anos que a discussão sobre tornar o jogo legal novamente volta à tona, sem avanços significativos.

No Congresso, tramitam duas propostas para legalizar os jogos de azar: o projeto de lei do Senado 186/2014, que em março foi barrado na Comissão de Constituição e Justiça, e o PL 442/1991, tramita na Câmara há inacreditáveis 27 anos.

Parece desanimador para potenciais investidores, mas pessoas que acompanham o assunto em Brasília dizem que, a despeito de eventuais reveses, as discussões sobre o assunto estão adiantadas, com o apoio de muitos congressistas. Além disso, com a União empobrecida, pré-candidatos à presidência de diferentes matizes estariam interessados em obter mais recursos com impostos com a aprovação dos jogos de azar, diz uma dessas pessoas.

Em vez de projetos específicos, a oportunidade se apresentaria, agora, com a Política Nacional de Turismo, que está em discussão e prevê as diretrizes para o setor.

Para o LVS, além de recolher mais impostos, o país se beneficiaria com a criação de empregos e o aumento do fluxo de visitantes internacionais. Em Cingapura, a receita com turismo aumentou de US$ 18,9 bilhões para US$ 27 bilhões entre 2010, quando os resorts integrados foram abertos, e o ano passado. A entrada de turistas estrangeiros no período aumentou de 11,6 milhões para 17,5 milhões. No Brasil, para comparar, esse número em 2017 foi de 6,5 milhões - quase um terço de Cingapura. E foi um recorde histórico.

Provavelmente o maior ícone do país asiático - algo como o Cristo Redentor para o Brasil - é o Marina Bay Sands, um complexo de três torres unido no topo por uma piscina suspensa de borda infinita. O complexo pertence ao LVS, que investiu US$ 5,6 bilhões no empreendimento.

Se o Brasil poderia atrair tantos recursos com um único complexo? "É possível, mas improvável", responde Adelson. Primeiro, o custo da mão de obra é mais barato no Brasil que na Ásia. Além disso, a construção do Marina Sands foi marcado por imprevistos que encareceram a obra: os terrenos no país não podem ser comprados, só alugados; há limitações para obter material como concreto e aço; profissionais especializados precisaram ser trazidos do Japão e faltou areia, que vinha da Indonésia.

O Brasil é um velho conhecido de Adelson, que foi dono da feira de tecnologia Comdex e chegou a fazer edições do evento em São Paulo e no Rio antes de vender a marca. A decisão de voltar a investir no Brasil, caso o jogo seja legalizado, vai depender do modelo adotado, afirma o empresário. O LVS quer que os cassinos fiquem restritos aos complexos turísticos - o modelo integrado que, para a companhia, é a única que pode trazer os benefícios desejados. "Na Argentina, há pequenos cassinos, mas não temos interesse nisso", diz Adelson. A carga tributária será outro ponto a avaliar.

Nascido em família pobre, Adelson mora em Las Vegas, onde criou os dois filhos. Dono de uma fortuna avaliada em US$ 40 bilhões, ele é dono do jornal de maior circulação de Tel Aviv e, recentemente, comprou um jornal nos EUA, o "Las Vegas Review-Journal".

E qual sua avaliação sobre o governo Trump? "Não falo de política. Não seria apropriado", diz, polido. Adelson pode ser polêmico, mas não perde a elegância jamais.

Fonte: GMB / João Luiz Rosa | Valor